Abrecado com o sobrecu - Por Mundim do Vale (Republicado)








Abre














cado com o sobrecu - Por Mundim do Vale

 
Certa vez uma prostituta do frejo de Várzea Alegre, sentiu a falta de uma franga de galinha pedrez. Inconformada ela se dirigiu a delegacia registrou a queixa de furto e pediu empenho da autoridade policial para que o criminoso fosse preso e punido pelo furto.
Antes de sair o delegado perguntou se a denunciante suspeitava de alguém, ela disse que não tinha certeza, mas desconfiava de Zé de Chicão. Zé era um preto que de vez em quando era visto nas cumieiras das casas. Assim que a queixosa saiu da delegacia, chegou Santana do Alfinim dizendo: Seu delegado, eu vi lá no oitão da casa de Zé de Chicão um bocado de penas de galinha pedrez. Se quiser pode perguntar a Zé Félix, que ele também viu.
O delegado chamou um cabo e um soldado e ordenou: Vocês vão apreender Zé de Chicão e as penas da galinha, mas tragam o denunciado com jeito, porque por enquanto ele é apenas suspeito. Os policiais se dirigiram para a casa de Zé, quando chegaram no oitão colocaram as penas num saco plástico e como não tinha portas na casa, foram direto para a cozinha, onde encontraram Zé com o sobrecu da galinha na mão. Quando Zé viu os dois do lado dele, falou: É sirvido Seu cabo? Servido uma ova! Têje preso! Preso pruque? Já é crime comer galinha? Sendo furtada é. E vamos logo que o delegado quer lhe ver. Cadê o mandado? Taqui Hó! Dizendo isso o cabo desceu o cassetete na cabeça de Zé de Chicão. Zé quis correr mas os dois fecharam em cima dele, aí o pau cantou. Com uns quinze minutos estava Zé amarrado e sem o couro da testa, o cabo com a farda rasgada e o soldado sem os dentes da frente.
Os policiais pegaram o suspeito, as penas e o sobrecu e levaram para apresentar ao delegado. Chegando na delegacia disseram: Pronto seu delegado, taqui o suspeito e as provas do crime. O delegado lavrou o flagrante, abriu o inquérito e ouviu o denunciado. Depois remeteu os autos e as provas, para o poder judiciário. O promotor ofereceu a denuncia, o juiz ouviu o denunciado, arrolou as testemunhas, nomeou um defensor público e marcou a audiência de instrução para a semana seguinte.
No dia da audiência compareceu Zé Félix e Santana do Alfinim. O juiz mandou que Zé Félix entrasse, fez a qualificação e perguntou: O Senhor conhece Zé de Chicâo? Conheço sim Senhor. Ele é casado? É sim Senhor. Com quem? Com uma mulher. O Senhor parece que é besta? Já viu alguém casado com homem? Já sim Senhor, a minha irmã Damiana é casada com um. O juiz irritado dispensou a testemunha e mandou Santana do Alfinim entrar. Feita a qualificação perguntou: A Senhora conhece Zé de Chicão? Conheço sim Senhor. Sabe dizer se ele costuma furtar coisas alheias? Bem. Tirando da pata de Sá Nem e do galo de Mestre Helói que ele afanou, eu só vi falar do bode de Raimundo Belo. O juiz dispensou as testemunhas, o processo ficou tramitando quando foi com nove dias, foi proferida a sentença condenando Zé a seis meses de reclusão em regime fechado.
Depois do cumpra-se Zé foi recolhido a cadeia pública. No dia seguinte o defensor foi visitar o constituinte tentando justificar a condenação: Eu lamento muito Zé. Mas eu fiz tudo que deu para fazer, quem cagou o pau foi o juiz e as testemunhas. Mas não fique triste não, que hoje mesmo eu vou recorrer da sentença. Zé aparentando tranqüilidade disse: Precisa não doutor. Deixe do jeito que tá mesmo. O juiz me deu seis meses de cadeia só porque eu comi uma franga de galinha. Se aquele infeliz souber que eu tombém comi a dona da franguinha, vai querer me dar vinte anos.
Mundim do Vale.


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